Braima Galissa: O Híbrido Improvável
By Francisco ‘Fininho’ Souza

Conheci Braima Galissa lentamente. Não num determinado momento, mas ao longo de anos.  Quando nos tornámos amigos próximos e começámos a trabalhar juntos, éramos já incapazes de  traçar a origem exacta da nossa amizade. Braima é uma figura cultural de talento cristalino,  colocado perante uma ambiguidade azeda; Por um lado é um artista disciplinado e meticuloso,  que atingiu um nível de desempenho raro, colaborou com algumas das maiores figuras da música  nacional como Sara Tavares e General D, toca Kora todos os dias há 55 anos e impõe um estilo  especialmente tecnicista, sofisticado, e absorvente de todas as linguagens musicais valiosas à  sua volta. Por outro, a arquitectura dos costumes culturais Europeus delineou-lhe limites por ele  sempre rejeitados mas impossíveis de ignorar. Vezes sem conta, em sua representação perante o  interesse – mais ou menos formal – de editoras na gravação e edição dos seus temas, ouvíamos  propostas ou planos de pré-produção já definitivos que consistiam apenas no Braima, sozinho, a  tocar os seus temas na Kora, cantando. Sem metrónomo, sem efeitos; “Puro”. E sem interesse  em ouvir o próprio artista que, repetindo em vários idiomas e ao longo de variações gramaticais,  afirmava que a sua música era de dança, criada para uma banda de pelo menos cinco elementos.  Estes editores independentes, bem versados nos obscuros nomes do Jazz, nunca se  aperceberam da arbitrariedade daquela arrogância; seria este paternalismo também calmamente  explicado a discípulos dos Weather Report? A identidade histórica do Djidiu como contador de  histórias e a sua formação histórica como compositor para Kora e voz é inegável. O que se  duvida é do músico tradicional Guineense exclusivamente como agente do passado, estático no  tempo, representante de uma pureza cultural imaginada. A Kora, como tantos outros  instrumentos desenvolvidos ao longo de séculos, evoluiu. Braima, como qualquer músico  Guineense, toca Salsa. O Gumbé, cuja versão Guineense é o orgulho nacional da Guiné-Bissau,  teve muitas vidas, e tem muitas versões distintas pela África ocidental adiante. A Morna Cabo verdiana, como argumenta Vasco Martins, tem fortes influências da Argentina, via ilha da  Boavista. A modernidade não é um projecto exclusivamente Europeu, e é um desperdício que  músicos associados a territórios (erradamente) vistos como alheios à modernidade tenham  constantemente de provar que também pertencem ao clube dos “cosmopolitas”. Os Tabanka  Djaz que o digam. 

A 8 de Junho de 1998, de regresso à Guiné-Bissau depois de ter actuado em dois concertos, viu  os seus voos cancelados ao saber que Ansumane Mané tinha reunido tropas para depor Nino  Vieira em Bissau, iniciando uma Guerra Civil. Braima viu-se, então, inadvertidamente retido em  Portugal e uma nova vida tomou forma. Um novo país por tempo incerto, com novas tradições  musicais e formas de comunicação, e muitos admiradores de braços abertos. Uma das maiores  diferenças que Braima refere ter encontrado em Lisboa foi a de poder colaborar com músicos de  conservatório. Estes músicos, experimentados na composição colectiva, impunham um método  e uma estrutura tanto nas composições como nos ensaios que o fez repensar as possibilidades  da Kora e voz em estúdio. Tudo, afinal, era possível. Lembro-me de, em certos períodos de  abertura e inspiração, ter ouvido pelo WhatsApp experiências quase diárias que o Braima ia  fazendo com músicos de todos os ângulos. Da Kora em loop e sob efeitos, enleada numa manta  de texturas de electrónica experimental, a um tema onde a Kora parecia arrastar-se, distorcida,  em linguagem blues ou, frequentemente, a Kora tocando sobre uma caixa de ritmos. A vontade  de absorver a diversidade espantosa de tradições musicais na metrópole não influenciou, no  entanto, um dos pilares fundamentais da sua arte. Braima representa uma forma artística rara  entre as elites culturais das grandes cidades contemporâneas: carrega a sua arte como um  desígnio que exige disciplina, repetição, rigor e paciência. A Kora exige constantes afinações,  manutenção e tipicamente um período de aprendizagem de vários anos, incompatível com a era  artística contemporânea de expectativa de resultados imediatos. Braima não vê a sua carreira de  músico como uma forma de escape ou de liberdade de expressão, mas como uma  responsabilidade herdada, honrosa e que importa cumprir em pleno.  

A minha geração, nascida pouco depois do 25 de abril em Portugal, foi totalmente dominada pela  cultura do eixo EUA-Reino Unido. Essa preponderância, que abordei de forma juvenil mas  enérgica no panfleto “Colónia Cultural Voluntária”, tem como uma das consequências a  marginalização imediata de música de tradições afastadas desse eixo. A música de dança  electrónica sem Detroit, Chicago, Londres e Manchester perde peso e transforma-se numa de  duas hipóteses: um papagaio irrelevante, ou uma novidade imperceptível para a maioria 

esmagadora das populações ocidentais urbanas, educadas, viajadas e democráticas. As portas  da aceitação são sempre, por muitas razões, abertas por projectos das mesmas metrópoles:  Nova Iorque, Paris, Londres, LA, Berlim. A World Music como um projecto unitário (que é cada  vez menos), mostrava “o outro lado” empurrado pela contracultura e pelos cooperantes  entretanto regressados. Esse lado, hoje, está esgotado porque traz consigo percepções  essencialistas que o novo entusiasta já não patrocina: genuinidade, simplicidade, primitivismo.  

Braima, continuamente avaliado por editores Europeus como apenas um representante, revelou  repetidamente para quem o ouviu ao longo da sua longa carreira, todas as qualidades de um  compositor tradicional em constante evolução, bem como as de um experimentador urbano  implacável. Essas frequências, no entanto, permaneceram inaudíveis às mesmas elites que, nos  anos 80, precaviam Youssou N´Dour para que não se degradasse fazendo música sofisticada.  Este disco, ao aninhar-se em redor das suas composições enquanto busca um som híbrido e  desabrigado, encurta distâncias e junta finalmente a arte de Braima ao corpo árduo de trabalho  que cria novos pólos, novas misturas, novos riscos, novas alternativas aos mesmos centros  urbanos que ainda hoje nos ditam o gosto. Porque é neste trabalho de lento aperfeiçoamento que  se cria cultura: um achatamento intercultural radical que gera uma equivalência e familiaridade,  facilitando a troca de argumentos musicais ao ponto das fusões parecerem, afinal, naturais.  

Obrigado Braima e Gris Gris.

Braima Galissa: The Unlikely Hybrid
By Francisco ‘Fininho’ Souza

I came to know Braima Galissa gradually. Not in a specific moment, but over the course of years. By the time we became close friends and started working together, we were already unable to pinpoint the exact origin of our friendship. Braima is a cultural figure of crystalline talent, faced with a bitter ambiguity; On one hand, he is a disciplined and meticulous artist who has reached a rare level of performance, collaborated with some of the biggest names in the portuguese music scene such as Sara Tavares and General D, has played the Kora every day for 55 years, and imposes a style that is particularly technical, sophisticated, and absorptive of all valuable musical languages around him. On the other hand, the architecture of European cultural customs outlined limits that he always rejected but found impossible to ignore. Time and again, representing him before the interest – more or less formal – of record labels in recording and releasing his songs, we would hear definitive pre-production proposals or plans consisting solely of Braima, alone, playing his songs on the Kora, singing. Without a metronome, without effects; “Pure.” And without any interest in listening to the artist himself who, repeatedly in various languages and over grammatical variations, asserted that his music was dance music, created for a band of at least five members. These independent labels, well-versed in the obscure names of Jazz, never realised the arbitrariness of their arrogance; would this paternalism also be calmly explained to disciples of Weather Report? The historical identity of the Djidiu as a storyteller and his historical formation as a composer for Kora and voice is undeniable. What is questioned is the traditional Guinean musician exclusively as an agent of the past, static in time, representative of an imagined cultural purity. The Kora, like so many other instruments developed over centuries, has evolved. Braima, like any Guinean musician, plays Salsa. Gumbé, whose Guinean version is the national pride of Guinea-Bissau, has had many lives and has many distinct versions throughout West Africa. The Cape Verdean Morna, as Vasco Martins argues, has strong influences from Argentina, via the island of Boavista. Modernity is not an exclusively European project, and it is a waste that musicians associated with territories (erroneously) seen as alien to modernity constantly have to prove that they also belong to the club of “cosmopolitans.” Ask Tabanka Djaz about it.

On June 8, 1998, returning to Guinea-Bissau after performing in two concerts, he saw his flights canceled upon learning that Ansumane Mané had gathered troops to depose Nino Vieira in Bissau, starting a Civil War. Braima found himself inadvertently detained in Portugal, and a new life took shape. A new country for an uncertain time, with new musical traditions and forms of communication, and many admirers with open arms. One of the biggest differences Braima mentions finding in Lisbon was the ability to collaborate with conservatory-trained musicians. Experienced in collective composition, they imposed a method and structure both in compositions and rehearsals that made him rethink the possibilities of Kora and voice in the studio. Everything, after all, was possible. I remember, in certain periods of openness and inspiration, hearing almost daily experiments sent through WhatsApp that Braima was trying with musicians from various latitudes. From the Kora in loop and under effects, entwined in a blanket of experimental electronic textures, to a theme where the Kora seemed to drag, distorted, in blues language or, more frequently, the Kora playing over a drum machine. The desire to absorb the astonishing diversity of musical traditions in the metropolis did not influence, however, one of the fundamental pillars of his art. Braima represents a rare artistic form among the cultural elites of contemporary big cities: he carries his art as a design that demands discipline, repetition, rigor, and patience. The Kora requires constant tuning, maintenance, and typically a learning period of several years, incompatible with the contemporary artistic era of expecting immediate results. Braima does not see his career as a musician as a form of escape or freedom of expression, but as an inherited, honorable responsibility that matters to fulfill fully.

My generation, born shortly after the April 25 Revolution in Portugal, was totally dominated by the culture of the USA-UK axis. This preponderance, which I addressed in a youthful but energetic way in the pamphlet “Voluntary Cultural Colony,” has as one of its consequences the immediate marginalization of music from traditions far from that axis. Electronic dance music without Detroit, Chicago, London, and Manchester loses weight and transforms into one of two possibilities: an irrelevant parrot, or an imperceptible novelty to the overwhelming majority of urban, educated, traveled, and democratic Western populations. The doors of acceptance are always, for many reasons, opened by projects from the same metropolises: New York, Paris, London, LA, Berlin. World Music as a unitary project (increasingly less so) showed “the other side” pushed by counterculture and returning cooperantes. “The other side”, today, is exhausted because it brings with it essentialist perceptions that the new enthusiast no longer sponsors: authenticity, simplicity, primitivism.

Braima, continuously evaluated by European labels as just a representative, has repeatedly revealed to those who listened to him throughout his long career all the qualities of a traditional composer in constant evolution, as well as those of a relentless urban experimenter. These frequencies, however, remained inaudible to the same elites who, in the 80s, warned Youssou N’Dour not to degrade himself by making sophisticated music. This record, nesting around his compositions while seeking a hybrid and unprotected sound, shortens distances and finally brings Braima’s art close the arduous body of work that creates new poles, new mixtures, new risks, new alternatives to the same urban centers that still dictate our taste today. Because it is in this work of slow perfection that culture is created: a radical intercultural flattening that generates equivalence and familiarity, facilitating the exchange of musical arguments to the point where fusions seem, after all, natural.

Thank you, Braima and Gris Gris.

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